domingo, 30 de outubro de 2016

Mandarim: aplicativo HelloChinese

      Pela distância linguística entre o português e o mandarim, alguém que está acostumado a estudar apenas línguas indo-europeias, como espanhol, alemão, inglês, pode sentir uma dificuldade um pouco “maior que o normal” ao tentar aprender mandarim. É o que acontece comigo já há alguns anos. Apesar de ter facilidade com os sons da língua e não ver como um problema o fato de ser tonal, tenho uma dificuldade absurda para decorar os caracteres. 
Pois bem, um aplicativo de celular que está me ajudando muito nesse sentido (decorar a escrita e o vocabulário) é o HelloChinese, que começa abordando a pronúncia e, após 45 lições, aborda os estados de ânimo, totalizando 46 lições e 5 revisões. No meu caso, serve para revisar o que já estudei um dia e aprender algumas coisas novas, mas, como o aplicativo é para iniciantes, serve para qualquer um. Cada pessoa tem suas particularidades ao estudar e aprender, então nem sempre o que funciona com um funcionará com outro. Apesar de ser bom, o aplicativo NÃO substitui livros e o contato com a cultura, e NÃO é nenhuma fórmula mágica do tipo “aprenda em 3 meses” – o tipo de propaganda que me soa mentirosa, e não apenas para o mandarim.
Alguns alunos já me perguntaram sobre aplicativos para estudar espanhol e eu, sinceramente, não conheço nenhum, mas, se a pessoa acha que é um bom apoio aos estudos, quer dizer que para ela vale a pena. No caso do mandarim, o aplicativo, além de me ajudar com a parte que mais tenho dificuldade no idioma, é uma maneira de poder revisar o que já estudei e estudar a qualquer hora do dia. Recomento.

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Изаура из Ливанa

Мой прадед, отец моей бабушки со стороны матери, родился в Большой Сирии, в городе имени Anfeh, в районе, который в настоящее время принадлежит Ливану. Его  родной язык – арабский (ISO 639-3,  по Ethnologue). Вероятно, он не знал  никаких других  языков, хотя арабский не был единственным языком на котором говорят там. Возможно, что некоторые её родственники говорили также по-французски.
Он оказался здесь не зная ни слова по-португальски. Его имя было адаптировано, и, как это часто бывало с другими иностранцами, его семья не сохранила язык.
Как поясняет Amparo Hurtado Albir, во второй главе книги  Traducción y Traductología: introducción a la Traductología  (по свободного перевода, Перевод и учёбы перевода: введение   в изучение перевода), все те, которые говорят на более чем на одном языке, имеют  врождённую и рудиментарную способности для перевода - так называемый traducción natural (“натуральный перевод”). Там же автор говорит о traducción interiorizada (“интериоризированых переводов”),  когда в процессе перевода мы сравниваем наш язык с языком, которому учимся. Этот феномен постепенно исчезает со временем изучения (когда начинаем погружаться в изучение языка, и преподаватель советует нам: “начинаете думать на этом языке”).
Как хороший говорящий  иноязычный в чужой стране, этот мой предок, вероятно, делал много интериоризированом переводе, но он пошел дальше, переводя на арабский «Рабыню Изаура», книга, которая дала моей бабушке её имя. К сожалению, у нас нет контакта с  людьми оттуда и не знаем где копия перевода  этого сочинения, а даже если бы мы знали это, мы не смогли бы читать по-арабски. В результате культурный обмен, мы наследовали арабскую кулинарию (хумус, табулах, бабагануш) и семья из ливана получила, через перевода книги,образчик нашей культурой. Можно представить себе, насколько богаче была бы культура Бразилии если бы мы смогли сохранить язык наших предков.

Источник:
HURTADO ALBIR, Amparo. “Clasificación y descripción de la traducción”. In: Traducción y Traductología: introducción a la Traductología. Мадрид: Cátedra, 2001г. ст. 43 - 95.
(И моя мать, с данными семьей не имеющие документального подтверждения).

Переводила из португальского на русский Кармэн Дуартэ (Camen Duarte).
Осмотр: Серже Сутулин.
Оригинал по-португальски: Лариса Дуартэ.

Переводила на испанский Лариса Дуартэ.

Versão em português.
Versión en español.

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Isaura en el Líbano

         Mi bisabuelo, el padre de mi abuela materna, nació en la Gran Siria, en Anfeh, región que hoy pertenece al Líbano. Su lengua era el árabe (ISO 639-3, según el Ethnologue), y lo más probable es que no supiera otras lenguas – aunque el árabe no es la única lengua de la región y, aparentemente, algunos de sus familiares supieran también el francés. Llegó a Brasil sin saber nada de portugués, tuvo su nombre adaptado y, como tantos otros extranjeros, los descendientes no mantuvieron su lengua.
Como aclara, haciendo referencia a Harris y Sherwood (1978), Amparo Hurtado Albir, en el segundo capítulo del libro Traducción y Traductología: introducción a la Traductología, todos los que hablan más de una lengua tienen una habilidad innata e rudimentaria para traducir, que es la traducción natural. De esa manera, la autora habla acerca de lo que llama traducción interiorizada, que es lo que pasa cuando comparamos nuestra lengua materna con otra que estamos estudiando, fenómeno que con el transcurso del tiempo, con la profundización del aprendizaje, comienza a desaparecer (es la traducción que se hace cuando uno estudia un idioma y la/el profe le dice: « ¡No traduzcas, piensa en [el idioma]!»).
Como se espera de un hablante de lengua extranjera en tierras extrañas, mi bisabuelo sólo puede haber «producido» muchas traducciones interiorizadas, pero él fue más allá: tradujo del portugués al árabe La Esclava Isaura, obra que sirvió de inspiración para el nombre de mi abuela. Desafortunadamente, no tenemos contacto con los parientes del Líbano, no sabemos dónde está la copia de la traducción de la obra y, aunque supiéramos, no seríamos capaces de leer en árabe. El hecho es que en ese cambio cultural sólo nos tocó la culinaria árabe: los libaneses heredaron, a través de la obra brasilera, un poco de nuestra cultura, mientras nosotros recibimos de allá el hummus bi tahina, el tabulah, el baba ghannuj. Y, con todo eso, me quedo pensando en cómo sería Brasil si mantuviéramos las lenguas de nuestros antepasados. Seguro tendría más sabor.

Referencias:
HURTADO ALBIR, Amparo. “Clasificación y descripción de la traducción”. In: Traducción y Traductología: introducción a la Traductología. Madrid: Cátedra, 2001. p. 43 - 95.
(Y mi madre, quien me cuenta las historias de la familia y de la traducción que jamás vimos).

- Versión en español - 21/10/2016.

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Sobre a importância da Licenciatura

            Dou aula de espanhol já há algum tempo, mas não estudo licenciatura. Sou do bacharelado, sou da tradução, mas sou professora. Acontece que já tive muitos professores, já fiz muitas aulas. Pré-escola, ensino fundamental, ensino médio, cursinho pré-vestibular (dois diferentes), cursinho de química, cursinho de inglês uma vez, e duas, e três, e quatro, e cinco vezes (sim, em cinco escolas diferentes), de francês, de espanhol, de mandarim, em dois lugares, de libras, aulas de natação, de mergulho básico, de Pilates, de dança de salão, de flamenco, de ballet para adultos, de dança experimental, de yoga, aulas particulares de diversas coisas, parte do curso de Veterinária, curso de Letras. Sou viciada em aula, sinto falta de aula nas férias, sonho que estou tendo aula. Na sala de aula, aprendo o mesmo tanto sobre a matéria e sobre gente – às vezes, mais a segunda que a primeira parte. Eu me lembro de quando minha mãe começou a me alfabetizar, me lembro das atividades que eu fazia, me lembro da alfabetização na escola, me lembro de quando tinha que ir ler lá na frente quando estava no pré. Lembro de cada bom professor e, principalmente, dos não-professores.
            Para dar aula no ensino regular, ainda precisamos – que bom! – de uma licenciatura. Então, eu não dou aula no ensino regular. Já tive professora de matemática com licenciatura e sem nenhum tato e respeito para lidar com adolescente. Já tive professores sem licenciatura e com doutorado sem nenhum conhecimento de didática. Já estagiei com uma pessoa com pós em educação que “absorveu” do conteúdo o mesmo tanto que absorveria uma pedra. Mas, então, por que a necessidade de uma licenciatura? Bom, provavelmente me graduo no próximo semestre na tradução e pretendo seguir os estudos na licenciatura dupla português/espanhol (que, parece, será criada na minha universidade). No semestre anterior ao que iniciei o curso, participei de alguns cursos EAD, não muito bons, mas interessantes, sobre educação. As disciplinas que mais me agradaram na Veterinária foram relacionadas à educação, já realizei o curso (EAD) Gramática de referencia para la enseñanza de ELE (niveles C), pela Universidade de Salamanca, e pretendo participar de muitos outros. Então, como dá para perceber, eu realmente acho importante ter formação para ensinar.
            Acontece que, mais importante que o título, é o estudo. Mais importante que quatro anos e meio em uma faculdade, é estudar o resto da vida, todo mês, toda semana, todo dia, toda hora, o máximo de tempo possível, até ser aquilo – tudo bem, sem exageros (ou com exageros). Acredito que o mais importante da universidade é a troca de conhecimentos e o acesso a determinados materiais, e seria muito bom poder dizer que as pessoas teriam consciência o suficiente para procurarem sua formação, do jeito que lhes pareça mais eficaz, sem necessitarem de a obrigatoriedade de um sistema, mas me parece que não funciona para a maioria das pessoas. Eu sei que ainda não sei nada perto do que pretendo saber um dia, mas muitos se contentam com nada, e ter licenciatura como pré-requisito para dar aula é garantir que será menor o risco de alguém extremamente despreparado ser responsável por uma criança durante parte do dia. 

sábado, 22 de outubro de 2016

Literatura juvenil: entrevista com Stephanie Tuanny e Nicole Bernardi

            Como uma não-conhecedora que sou da literatura juvenil – a única obra que me lembro de haver lido em toda minha vida foi O Mundo de Sofia, de Jostein Gaarder, 1991, tradução de João Azenha Jr; e percebendo que muitos –muitos, não todos– dos livros mais vendidos atualmente são livros voltados para o público jovem (o que é possível verificar em sites como o da Grupo Editorial Record, o da Livraria Cultura e o da Saraiva), me pareceu uma boa oportunidade a oportunidade que me apareceu: conversar/entrevistar duas autoras de livros voltados para esse público.
            Foram quase três horas de conversa pelo Facebook, já que elas não estão na minha cidade, sobre elas e os livros delas, além de a literatura juvenil e o tema da tradução na visão delas (ou seja, na visão de quem escreve, não na de quem traduz). Como base teórica para algumas perguntas, foi utilizado o texto "Vuelve la polémica: ¿existe la literatura... juvenil?", de Jaime García Padrino, disponível no site da Universidad de La Rioja e acessado no dia 21 de outubro. Acredito que foi importante para eu conhecer um pouco mais do meu entorno, já que não são poucos os colegas do curso de Letras que comentam sobre esse tipo de literatura e eu, que nunca li nem um Harry Potter sequer, escuto os comentários como se estivessem falando hindi, e também para conhecer melhor o adolescente que difere da adolescente que fui e que pode ser meu aluno um dia. Espero que possa ser útil para outras pessoas também, incluindo a Stephanie e a Nicole.

1. Qual a idade de vocês, em que trabalham ou estudam e quando começaram a escrever?
- Nicole: Bom, eu tenho 24 anos, já estudei Psicologia e Letras, sem concluir, e atualmente faço Pedagogia, porque sempre sonhei trabalhar com crianças! Trabalho com meus pais no comércio, mas não pretendo seguir lá por muito tempo. Comecei a escrever pequenos textos e poesias com uns 14 ou 15 anos, mas nunca compartilhei com ninguém. A Stephanie é uma das poucas pessoas que conheceu esse meu lado e apoiou!
- Stephanie: Tenho 24 anos, sou redatora freelancer, estudo Letras - Português/Italiano e não lembro ao certo quando comecei a escrever, mas com 9 anos sei que já escrevia no Microsoft Word!

2. Vocês já publicaram outras obras? Como foi?
- Stephanie: Eu tenho uma ficção infanto-juvenil no Clube de Autores, a venda acontece por consignação, o livro é impresso só quando é vendido o exemplar! Foi o Rafael (meu marido) que fez isso sem eu saber, porque eu não tinha coragem de mostrar pra ninguém.
- Nicole: Publicar um livro sempre foi um sonho que eu deixei escondido por muito tempo, depois de uma experiência meio ruim no Ensino Médio, onde eu deixei meu lado escritora escondido. Só fui realmente pensar sobre isso de novo depois de ler o trabalho da Stephanie e saber que as pessoas precisavam ler aquilo também.

3. Ao procurar por artigos acadêmicos voltados ao estudo de literatura para o público jovem/adolescente, principalmente de obras mais recentes, percebemos que o material é escasso. Há espaço na universidade de Letras para o estudo e o incentivo a escreverem, seja essa ou qualquer outra literatura? E no caso do curso de Pedagogia, Nicole, qual o espaço do estudo da literatura para adolescentes e da literatura infantil?
- Stephanie: Na questão de artigos acadêmicos, eu não sei te dizer, mas na Universidade em geral, eu não sinto tanto o incentivo. Entre alguns professores e alguns alunos, eu sinto muito preconceito por gêneros voltados para público jovem. Muitas pessoas da área só consideram os grandes clássicos como literatura válida, e o tipo de escrita neles desagrada muitos adolescentes.
- Nicole: Bom, na Letras eu vejo que o material para jovens adultos não é considerado tão sério, e o tempo em que eu estive lá, percebi que a grande maioria dos alunos nutria sim uma vontade de escrever um livro, mas nunca percebi incentivo algum por parte de professores ou universidade como um todo. Na Pedagogia, o papo é completamente diferente. Literatura é senso comum entre futuros professores, sendo peça primordial na formação das crianças.

4. Jaime García Padrino, da Universidad Complutense de Madrid, em "Vuelve la polémica: ¿existe la literatura... juvenil?" (1998), fala de quando o termo juvenil passou a ser utilizado para um público específico, em detrimento de infantil, que antes abarcava todos esses destinatários, e, logo em seguida, cita Enzo Petrini, que afirma que a literatura juvenil pode ser também definida como literatura educativa. Na opinião de vocês, no livro que escreveram e em outros que vocês conhecem, existe esse caráter educativo?
- Nicole: Educativo de forma conteudista, não. Mas as histórias juvenis possuem aquele quê de reconhecimento com o jovem, falam de coisas que são vivenciadas em determinada idade e sugere como lidar com elas. Dessa forma, se considerarmos "educativo", aí sim.
- Stephanie: Eu não usaria o termo educativo, exatamente, para o nosso. Não sei se a Ni vai concordar comigo, mas eu enxergo mais como uma leitura leve, pra se envolver com a história, descansar a mente.
- Nicole: Nada impede de ser uma leitura leve, mas que mexa totalmente com a estrutura do leitor, pra facilitar compreensão da sua própria vida.
- Stephanie: Sim! Pra mim é uma leitura leve, só para o leitor se envolver, sabe? Não para ler tentando aprender algo, com escrita mais complicada. Pode acontecer uma identificação sim, pode pegar alguma experiência para a vida, mas enquanto eu fazia, honestamente, não estava pensando em ensinar alguma coisa exatamente.
- Nicole: Aí eu concordo plenamente. É um educativo mais inconsciente, sabe? De repente lá na frente, acontece algo parecido e aí tu lembra da história, de como pode sair de uma situação ou um conselho para dar a alguém.

5. Jaime García Padrino afirma, no mesmo artigo, que uma das funções da literatura juvenil poderia ser facilitar o desenvolvimento de hábitos de leitura de caráter adulto. Vocês têm conhecimento de adultos que desenvolveram dessa forma o gosto pela leitura (e que hoje leem livros voltados para o público adulto)? Pensando nisso, qual seria o espaço das literaturas escritas para jovens nas escolas? E quanto às adaptações de livros adultos pensadas no público jovem?
- Stephanie: Concordo plenamente! Acho que uma leitura adequada para a faixa etária, desde a infância, facilita muito o gosto pela leitura. Muitas pessoas que eu conheci reclamavam de ter que ler Machado de Assis no colégio obrigatoriamente, por exemplo. Eu não estou desmerecendo essa leitura, eu acho sim que ter contato com os clássicos tem a sua importância, mas não acho que devia ser imposto para as crianças jovens como o único tipo de leitura possível! Conheço sim histórias de pessoas que começaram lendo fanfics na internet, e daí pegaram gosto pela leitura e hoje leem diversos tipos de livros. Na minha opinião, muitas pessoas que acham que não gostam de ler, podem ter tido só uma experiência frustrada quando novinhas, aprendendo que leitura é algo chato, obrigatório e para fazer trabalho. Particularmente, eu não aconselharia ninguém a começar na vida de leitor com Mário de Andrade, por exemplo.
- Nicole: Bom, eu sou a prova viva de que um bom estímulo faz milagres na juventude. Na minha casa, ninguém lê livros, só eu mesma (acho que leio por todos, inclusive). E quem me incentivou foi minha avó paterna. Comecei bem pequena, com livros de fábulas e coisa e tal, mas foi na adolescência que eu comecei a ter uma ideia de mundo diferente a partir dos livros. Lembro que um dos primeiros que eu me envolvi era da Thalita Rebouças, que é uma das maiores no segmento hoje. Nas escolas, eu sempre fui muito a favor de mesclar o clássico com o contemporâneo. O professor de literatura pode fazer provas e trabalhos sobre Machado de Assis, mas porque não um Harry Potter para variar? Acredito que tem espaço para tudo, e incentivo nunca é demais. Eu mesma me interessaria bem mais por Literatura na escola se fosse conduzida assim. E sou a favor também de transformar livros mais adultos em versões juvenis. Às vezes é mais fácil criar uma conexão com o leitor mais jovem dessa forma.
Tem um livro específico que, a Sté deve concordar comigo, seria de uma riqueza ímpar para trabalhar em sala de aula, o Extraordinário.

6. Ao pesquisar na internet, percebemos que o tema é tratado na maioria das vezes em jornais ou blogs, muitas vezes por leitores desse tipo de literatura ou por autores. Surgem, aí, alguns termos estrangeiros, como Young Adults, e algumas divergências quanto à faixa etária dos leitores. No caso dos livros que escreveram, vocês pensam em uma faixa etária e um público alvo específico? Qual seria? E em relação às outras obras que escreveram?
- Nicole: Não pensei em nenhuma faixa etária específica pros nossos volumes, mas se enquadrando na linha New Adults, acredito que seria para aqueles leitores que estão na transição entre adolescência e vida adulta, que estão entrando na faculdade agora, por exemplo. Até porque tem palavrão e cenas de sexo (não muito explícito) no conteúdo. Não sei se a Sté concorda. Qualquer uma de nós poderia ler e gostar, sem achar muito teen ou muito maduro.
- Stephanie: Realmente o gênero ganhou força na internet, entre as blogueiras, e tem conquistado espaço assim, na propaganda! Eu concordo com a Nicole, acho que o público alvo, no geral, deve estar entre os 18 e os 25, mas também concordo que qualquer pessoa poderia se envolver, porque criamos histórias muito naturais, cotidianas mesmo, então eu sinto que poderia gostar delas, mesmo que eu tivesse mais de 24.

7. Percebo que a maioria das pessoas que conheço e gostam desse tipo de literatura e não são mais adolescentes, são mulheres jovens.  Vocês acreditam que isso reflete uma realidade ou é coincidência? É comum as obras abarcarem o dito universo feminina? Classificariam a literatura de vocês como literatura feminina? Algumas pessoas se incomodam com o termo, pois, se não se classifica literatura como “literatura masculina”, não haveria motivo para classificar como “literatura feminina” – isso sem contar toda a discussão que pode haver em torno da palavra feminina. Vocês, enquanto escritoras, se consideram autoras de literatura feminina? Há entre as leitoras e autores do gênero a preocupação em relação a esse tipo de discussão e o espaço da mulher na literatura?
- Stephanie: Isso existe, não é coincidência. Eu acho que é reflexo de um certo machismo de que romance é coisa de mulher, por exemplo, que todo homem é durão e mulher é maria-mole. Não acho que o livro seja voltado exclusivamente pra mulheres, como eu disse, são histórias comuns e cotidianas, qualquer pessoa poderia se identificar, fora as que leem só pelo prazer de absorver alguma história, sem buscar exatamente a identificação pessoal, mas sim, o fato de existir esse estereótipo, faz com que o maior público desse tipo de livro seja feminino.
- Nicole: Eu acho que reflete uma realidade. Leitura é, infelizmente, predominantemente hábito feminino. Nossa literatura não é feminina, pode ser ligada á vida de qualquer um, acho. Mas de qualquer forma, sendo hábito feminino em maioria, acho que acaba tendo uma correspondência maior. Nunca me preocupei enquanto escrevia, mas nós sempre debatemos que não queríamos algo que ficasse muito "água com açúcar". Aliás, ser literatura feminina não deveria querer dizer que é uma literatura superficial. Para mim, se dividirmos assim, é tirar um pouco do valor real do trabalho em si. Esse viés mais voltado ao feminino deveria ajudar a situar e entender alguns aspectos e não "encaixar" todas as mulheres num estereótipo.

8. Quais os livros mais famosos, dentre os que vocês conhecem, que se enquadram como New Adults? Quais são os seus favoritos? Além de a literatura juvenil, o que mais lhes agrada em literatura? Possuem uma obra e/ou autor favorito?
- Stephanie: Um dos mais famosos hoje em dia é o A Culpa é das Estrelas, mas se eu não me engano esse é Young Adults (que é parecido, mas não é igual). Eu tenho duas obras que me cativaram no New adults, uma é Beleza Perdida, da Amy Harmon, e outra nacional é As batidas perdidas do coração, da Bianca Briones. Foram os meus de estreia, basicamente, e gostei muito dos dois, que são totalmente diferentes entre si.
Eu adoro livros de drama! Os meus favoritos nesse gênero são Éramos Seis, da Maria José Dupré, e A cidade do Sol, do Khaled Hosseini. Amo os suspenses do Stephen King, e sou apaixonada pelo clássico antigo Anne de Green Gables, que honestamente eu nem sei em qual gênero enquadraria.
- Nicole: Lá vêm aquelas perguntas realmente difíceis! Bom, resumidamente, até dói o coração ter que escolher. Então vamos primeiro falar dos New Adults. Os mais conhecidos são aqueles que acabam virando filme, como Como Eu Era Antes de Você, ou um dos mais vendidos, como Belo Desastre. Mas a lista de sucessos é gigante e vem ficando maior a cada dia. Sobre favoritos, vai ficar bem complicado, então não vou escolher livros, mas autores. Entre os nacionais, Bianca Briones é a minha diva-mor! Eu sou apaixonada por todos os mundos que ela criou até agora. De autoras internacionais, Nora Roberts eu adoro, Cassandra Clare, Jamie McGuire, Lucinda Riley... Fora histórias (e minha paixão por New Adults), também amo crônicas (Martha Medeiros, Clarissa Corrêa) e poesia (Cecília Meirelles, Paulo Leminski).

9. De onde surgiu a ideia de escrever em parceria e como ocorreu a construção da obra e dos personagens?
- Stephanie: Eu sempre tive vontade de escrever com a Nicole, porque nós duas compartilhamos há muito tempo conversas sobre tudo o que lemos. Já lemos em conjunto, então sempre achei que escrever em conjunto seria uma experiência incrível, e tinha razão. A ideia do primeiro livro da sequência surgiu naturalmente. Eu quis criar uma personagem com o nome dela, e reunir na história dessa personagem todos os elementos que sabia que agradavam a Nicole na leitura. Quando mandei pra ela o início, ela gostou tanto, e isso me deixou tão animada, que a parceria aconteceu naturalmente! Ela deu dicas, e eu achei que seria melhor se fizéssemos logo juntas, assim ela podia suprir a minha falta de tato e experiência para algumas coisas, e nos completamos um pouco. Nós construímos a partir daí o restante, e foi uma experiência muito legal! A construção de personagens do primeiro foi assim, bem natural, para falar a verdade eu não sei bem de onde buscamos. O segundo foi na empolgação. Nós não estávamos prontas para nos despedir dessa experiência, então estendemos isso com um personagem que era secundário no primeiro livro, criando uma história paralela para ele também.
- Nicole: Eu e a Stephanie somos amigas desde bem novinhas e, por conta da minha mudança para Porto Alegre, nos distanciamos alguns anos e nos reencontramos virtualmente depois. Ela já escrevia webnovelas e eu fazia textos que ficavam guardados em cadernos. Numa das nossas conversas infinitas depois que nos reencontramos, tocamos nesse assunto de alguma forma e ele foi a semente do que a gente fez. Antes da escrita, fizemos várias sessões de leituras juntas, ela no Rio e eu em Porto Alegre, lendo o mesmo livro quase ao mesmo tempo. Mas quando é escrever, eu nunca mostrava nada da minha escrita para ninguém e só consegui quebrar esse bloqueio com ela e muito recentemente. Ela gostou do que leu, eu me apaixonei pelo talento dela, e assim surgiu a ideia de trabalharmos juntas em algum projeto. Só não sabíamos que ia ser tão cedo e dessa forma intensa que foi. Quanto aos personagens, a primeira protagonista foi um presente, porque ela leva meu nome e muito da minha essência e ajudar a construir isso foi uma das melhores experiências que eu já tive. O segundo veio com a empolgação e a incapacidade de desapegar do nosso mundo particular. Digamos que depois que nos complementamos literariamente, escrever em parceria é parte do nosso dia a dia, totalmente natural.

10. Vocês pensam em um dia traduzir o livro? Para qual ou quais línguas? Por quê? Como isso mudaria a visibilidade da obra?
- Stephanie: Nós estamos caminhando devagar ainda, pensando na primeira tiragem, possivelmente uma tiragem independente, para vermos como vai ser. Se tivermos um resultado positivo com o tempo, eu adoraria arriscar passar pra outras línguas, talvez colocar o ebook traduzido em plataformas como a Amazon. Eu não me sinto capaz de traduzir para o italiano em um bom tempo, não vou me especializar em tradução, mas adoraria vê-los em italiano um dia! Quem sabe...
-Nicole: Nossa, eu nunca cheguei a pensar nisso! Tê-los publicados já é um sonho, eu nem consigo sonhar com demanda internacional das nossas histórias. Mas eu ficaria mais do que feliz em vê-los em espanhol e inglês, que eu amo. O patamar é alto e nós ainda estamos rastejando, mas espero que possamos sim chegar lá um dia!

11. Stephanie, o italiano seria por um motivo emotivo, mercadológico ou pelo fato de sua graduação ser em italiano? Como se sentiria vendo algo escrito por você traduzido para essa língua? E, Nicole, no seu caso haveria, além de o gosto pelo espanhol e pelo inglês, outros motivos envolvidos? Você preferiria traduzir você mesma ou contratar um tradutor profissional?
- Stephanie: Sim, é pela minha graduação! Conforme vou frequentando as aulas, pego um carinho em ouvir o idioma, pelas palavras, pela entonação, e se paro para imaginar algum diálogo em italiano, acho que seria incrível. Não sei se a pergunta final foi para as duas ou para a Ni, mas eu contrataria um tradutor profissional um dia, com certeza. Não me sinto apta a traduzir, mesmo com fluência, sem especialização.
- Nicole: No meu caso, quando fiz Letras, minha graduação era Bacharelado em Português-Espanhol, e eu adoro a língua espanhola, só não sei se teria conhecimentos suficientes para eu mesma traduzir, já que troquei de curso e não conclui. Já inglês eu ficaria honrada em traduzir, mas não tenho capacidade léxica pra tal, então em ambas as situações, tradutores profissionais seriam contratados!

12. Caso tivessem a oportunidade de traduzir o livro, acompanhariam de perto o trabalho do tradutor? Acreditam que a participação de vocês seria importante? Se sim, em qual sentido? Como seria o processo?
- Stephanie: Sim. É claro que para alguém traduzir, teria que ler primeiro, e então provavelmente captaria a essência da narrativa, dos diálogos... Mas acompanhar seria interessante para o caso de alguma dúvida em alguma entonação, na hora de passar para a outra língua. Acho que seria legal acompanhar a pessoa à medida que ela fosse lendo, caso tivesse alguma dúvida sobre a história ou algum personagem.
- Nicole: Gostaria muito de poder acompanhar! Não sei se importante seria a palavra, mas eu me sentiria mais segura fazendo parte do processo, porque amo o que nós construímos e gostaria que fosse passado ao leitor de outra língua o mesmo amor, na mesma intensidade. Gostaria de poder ter liberdade de sugerir mudanças, se fosse o caso.

(Entrevista realizada no dia 22/10/2016).

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Isaura no Líbano

            Meu bisavô, pai da minha avó materna, nasceu na Grande Síria, em Anfeh, região que hoje pertence ao Líbano. Sua língua era o árabe (ISO 639-3, pelo Ethnologue), e o mais provável é que não soubesse mais nenhuma língua – apesar de o árabe não ser a única língua falada na região, sendo que alguns de seus parentes falavam também o francês, pelo que parece. Ele chegou aqui sem saber nada de português, teve seu nome adaptado e, como tantos outros estrangeiros, sua língua não foi conservada pela família.
            Como explica, citando Harris e Sherwood (1978), Amparo Hurtado Albir, no segundo capítulo do livro Traducción y Traductología: introducción a la Traductología, todos que falam mais de uma língua possuem uma habilidade inata e rudimentar para a tradução, a tradução natural. Assim, a autora fala em uma tradução interiorizada, que é quando comparamos nossa língua materna com a que estamos aprendendo, fenômeno que com o passar do tempo, do aprendizado, começa a desaparecer (sabe quando estamos estudando um idioma e a professora diz “para de traduzir, tenta pensar na língua”?). 
Como um bom falante de língua estrangeira em terras estranhas, esse meu antepassado deve ter “produzido” muita tradução interiorizada, mas ele foi um pouco além: traduziu ao árabe A Escrava Isaura, livro que deu nome à minha avó. Infelizmente, não temos contato com a gente de lá, não sabemos onde está a cópia da tradução da obra e, mesmo se soubéssemos, não saberíamos ler. O fato é que, na troca, ficamos apenas com a culinária: os parentes de lá herdaram, através da obra brasileira, um pouquinho de nossa cultura, enquanto nós recebemos de lá o hummus bi tahina, o tabulah, o baba ghannuj. Fico imaginando como seria o Brasil se conservássemos mais as línguas dos nossos antepassados. Imagino que mais colorido.

Fonte:
HURTADO ALBIR, Amparo. “Clasificación y descripción de la traducción”. In: Traducción y Traductología: introducción a la Traductología. Madrid: Cátedra, 2001. p. 43 - 95.
(E minha mãe, com os dados da família e a história da tal tradução nunca atestada).

Versão em espanhol.


По-русски.

domingo, 16 de outubro de 2016

Entrevista com a tradutora Carmen Gouveia

Carmen é graduada em Ciências Econômicas, Administração de Empresas e Ciências Contábeis, pela PUC Minas. Atuou, também, como tradutora e intérprete de língua russa.

1.      Quando e como você começou a estudar idiomas?
“Na escola, no ginásio, eu estudei francês e inglês. Adorava francês e levava muito a sério, mas no inglês não era chegada. No segundo grau, eu tinha que optar entre inglês e francês, e como minha mãe que fez a matrícula, ela fez confusão e me matriculou no inglês, com isso eu parei o francês. Mais tarde, na universidade, eu tinha que me virar com espanhol, para ler. Saindo da universidade, em 78, eu não mexi mais com idioma, somente em 83, ou 85, consegui descobrir onde se ensinava russo, que era minha grande vontade. Em 88, contratei professor de francês, e segui com russo e francês. Depois segui sozinha, fazendo aula de conversação esporadicamente”.

2.      Quais idiomas vocês já estudou e em quais se aprofundou mais?
“Eu estudei francês e russo. Estudei inglês no colégio e estou estudando sérvio. A que me aprofundei mais foi o russo, e quase no mesmo grau o francês. Tenho noções de ucraniano e búlgaro, consigo entender algumas coisas em polonês”.

3.      O que te motiva a estudar idiomas?
“Literatura, para poder ler no idioma original, e o encantamento que tenho pelas línguas e culturas eslavas. No caso do francês, é mais a cultura francesa, que acho bacana”.

4.      Saber uma língua estrangeira te ajudou na sua profissão?
“Não. Me deu uma profissão adicional, porque já trabalhei como tradutora e como intérprete. Na minha profissão, o máximo que precisei foi de francês, mas se não soubesse não faria diferença, porque na empresa que trabalhava, que era de transporte e tráfego, uma empresa estatal que se baseou no modelo francês para implantar o modelo tarifário da região metropolitana de Belo Horizonte, o material estava traduzido, e eu só usei material em francês como material extra, por curiosidade”.

5.      Como foi sua experiência como tradutora e intérprete?
“Foi gratificante poder me dedicar a um idioma que eu gosto demais durante o período em que eu atuei nessa área. Me deu a chance de praticar a língua russa, tanto a língua falada quanto a escrita, e de aperfeiçoar meus conhecimentos, na medida em que eu tinha que procurar ler material da área que estava atuando como intérprete, para adquirir vocabulário técnico. Atuei na área de mineração e indústria química como intérprete, e como tradutora fiz legendagem de vídeo e tradução de material sobre cachaça, vodka, etc”.

(Entrevista realizada no dia 13/10/2016).

Ah, Letras é mais fácil, né... (Parte 2)

Como disse no post anterior, nem todas as matérias no curso de letras são obrigatórias. No meu caso, preciso cursar 3 matérias do grupo G1, 4 do G2, 5 do G3, 8 optativas e 210 horas de atividades acadêmico-científico-culturais, além da monografia.

O grupo G1 envolve os estudos temáticos de língua e linguística espanhola, oficina de tradução e os estudos temáticos de tradução, para todo mundo do espanhol (bacharelado e licenciatura). As disciplinas de G1 que escolhi fazer foram:
- Oficina de tradução (espanhol): os outros idiomas também possuem essa matéria, mas a única que fiz foi a do espanhol. A carga de leitura é normal (o que significa bastante leitura, mas nada tão cansativo) e a dificuldade é média. Sempre é oferecida pelo mesmo professor. Passei com B.
- Estudos temáticos de tradução (espanhol): não é uma matéria que aparece sempre na oferta. Foi muito boa, a melhor dentre as que fiz sobre tradução. Nela, tivemos algumas práticas de tradução e versão de documentos, lemos alguns textos teóricos, e tivemos uma aula sobre legendagem com um convidado da Espanha. Foi fácil de passar, tanto que passei com A, mais por o método de avaliação da professora, que é tradutora juramentada de espanhol, haver colaborado, que por ser uma disciplina/conteúdo fácil.
- Estudos temáticos de língua e linguística espanhola (Escritura creativa): foi ótima a matéria, super leve e diferente do que estamos acostumados no curso. Consistiu em textos teóricos sobre escrita criativa e em práticas. Passei com A.

O grupo G2 consiste em estudos temáticos de literaturas hispânicas e também é igual para o pessoal da licenciatura. Duas estou cursando este semestre, que são a Literatura de autoria feminina e a Alteridades no teatro Latino-Americano. As que já fiz são:
- Estudos temáticos de literaturas hispânicas (Arte, cultura e literatura dos países de língua espanhola): foi uma matéria tranquila, com carga de leitura alta e provas que você fica em dúvida se vai conseguir terminar ou não (mas isso normal nas matérias de literatura, pelo menos nas que eu fiz). Fiquei com A.
- Estudos temáticos de literaturas hispânicas (Literaturas minoritárias da Espanha): começamos com a literatura basca, depois fomos para a catalã e terminamos com a galega. Foi legal, mas achei que ia morrer (a professora é a mesma do Panorama da literatura espanhola). Passei com A.

O grupo G3, no meu caso que sou do bacharelado com ênfase em tradução, são Estudos da tradução, ou qualquer matéria que o professor-orientador julgue necessária para a monografia:
- Estudos da tradução (Abordagem Sistêmico-Funcional da Tradução): foi muito difícil para mim. Fiquei com B.
- Língua latina III: originalmente, seria uma matéria optativa para mim. As impressões foram as mesmas da Língua latina I e da Língua latina II. Passei com A.
- Gramática do espanhol em contexto: originalmente, era uma disciplina de G1 (Estudos temáticos de língua e linguística espanhola). Foi muito boa e útil, além de um pouco cansativa/apertada. Passei com A.
- Morfossintaxe de línguas indígenas e africanas: foi uma matéria ótima, linda, uma das melhores! Metade dela foi antropologia. Originalmente, era uma disciplina de Estudos temáticos de linguística teórica e descritiva. Passei com A.
- Latim vulgar: foi super legal, interessante e útil para mim. Originalmente, é uma disciplina de Estudos temáticos de língua latina. Passei com B.

Optativas são todas as disciplinas das outras habilitações ou excedentes nos outros grupos:
- Língua latina I, Língua latina II: disciplinas interessantes e que julgo importantes. Latim é difícil, bem difícil, mas, por sorte, apesar de ser tudo um pouco corrido, não somos obrigados a decorar da noite para o dia e as provas são com consulta. Tirei A nas duas.
- Inglês instrumental I, Inglês instrumental II: são ofertadas para toda a comunidade acadêmica e são online. Falta organização na plataforma. São cansativas, pelo excesso de exercícios (parece um material de didático de cursinho de idioma, desses bem repetitivos, só que no computador), mas tranquilas para quem já sabe um pouco da língua. Passei com A nas duas.
- Fundamentos de libras: também é online, e mais organizada que as duas de inglês instrumental. É obrigatória para as licenciaturas. Gostei tanto que hoje estudo libras no centro de extensão da faculdade. Fiquei com A.
- Linguística aplicada ao ensino (ferramentas digitais): matéria online. Muito legal, produtiva, e bem tranquila para mim, mas conheço gente que tive dificuldade por não estar muito acostumada a usar a internet, e aí não dava conta de fazer todas as atividades. Tirei A.
- Sintaxe do português: achei a matéria um pouco difícil, apesar de ter aproveitado bastante a Introdução aos estudos linguísticos II. Fiquei com A.
- Inglês, habilidades integradas I: as matérias do inglês não começam do básico, diferentemente de todas as outras línguas. Você faz um teste de nivelamento no primeiro dia de aula e, se tirar nota o suficiente, pode fazer o curso. O nível seria intermediário, suponho que um B1 (não tenho como ter certeza). É semelhante a aulas de cursinho de idioma, mas sem aprofundar como acontece com o espanhol. Infelizmente, as provas são mais difíceis do que se imaginaria tendo como base as aulas. Fiquei com B.
- Estudos temáticos de linguística teórica e descritiva (pronúncia do inglês para falantes de português brasileiro): matéria ótima e essencial que deveria ser/seria bom se fosse obrigatória e do primeiro período (para alunos do inglês, claro). É ofertada uma vez por ano, se não me engano. Tem alguns conteúdos mais tranquilos e outros mais difíceis. Tirei A.

Finalmente, para se formar, além de, no caso do bacharelado, a monografia, todos temos que completar 210 horas de atividades acadêmico-científico-culturais, porém, essas 210 horas podem significar bem mais que isso: as horas têm equivalência em crédito, e 210 horas equivalem a 14 créditos, porém 400 horas dando aula equivalem a apenas 4 créditos. Para completar todas essas horas, podemos fazer atividades de um grupo que aparece como G4, ou participar de minicursos, escrever livros, fazer apresentações artísticas, dar aulas, receber uma premiação internacional, etc. Realizei duas matérias do G4, sendo a primeira de 15 horas e a segunda de 30 horas (as outras matérias do curso possuem 60 horas):
- Oficina de alfabetização em hebraico, Alfabetização em escrita cursiva hebraica: aprendemos, além de o alfabeto e transliteração, um pouco da história da língua e da cultura dos falantes. São muitas atividades em pouco tempo e foram matérias extremamente cansativas. Fiquei com A nas duas.

Além disso, podemos fazer disciplinas da pós-graduação, como isoladas, e disciplinas de outros cursos. Eu fiz uma disciplina isolada da pós em linguística, para ajudar na minha monografia. O nome da disciplina, de linguística teórica e descritiva, era Contribuições da sociolinguística histórica para o estudo de processos de mudança linguística. Passei com A e achei uma matéria incrível. Tínhamos normalmente duas leituras por aula e textos em português, espanhol e inglês. 

Quem tiver interesse em conhecer melhor a grade curricular, como funcionam os créditos do G4 e conhecer a ementa das disciplinas obrigatórias, tudo isso está disponível no site da Faculdade de Letras da UFMG.

O tempo que estive na veterinária, fiz 23 matérias, tirei 3 A e 3 B, sendo que D foi o conceito mais recorrente, totalizando 15 disciplinas. Além disso, repeti algumas matérias. Como qualquer um pode perceber, um aproveitamento bem diferente do que tenho hoje, e isso não significa que o meu curso atual seja mais fácil – assim como não seria um curso mais difícil se eu tivesse facilidade em decorar conteúdo e fosse bem no primeiro, e tivesse dificuldade em ler ou escrever textos, argumentar, e fosse mal no segundo. Uma vantagem de ter feito parte de outro curso é que, um dia, poderia aproveitar o que aprendi para me especializar em traduções na área. Outra vantagem é que conhecimento é sempre necessário, independentemente de se o usaremos ou não para trabalhar.
Tenho amigas que são ex-colegas de curso e hoje estudam antropologia, outras continuaram na veterinária, uma virou fotógrafa, e tenho certeza que todas já sofreram algum tipo de discriminação por causa do curso, já que sempre tem um para avisar que “cursos de humanas são fáceis”, “quem faz veterinária é porque não conseguiu passar em medicina”, e se esquecem que pessoas diferentes têm dificuldades e vontades diferentes, e que o baixo índice de aprovação em algo demonstra antes um problema no sistema educacional que o quão grande é o objeto de estudo. Apesar de alguns conteúdos serem mais fáceis ou difíceis para a maioria, o sucesso dos alunos depende muito do professor (além de o esforço do aluno e sua facilidade ou não com a matéria, claro). Muitos problemas seriam evitados se aprendêssemos a valorizar as diferentes áreas do saber e aproveitássemos, por exemplo, o tempo livre para ser autodidata em didática, já que ter pós-doutorado não faz de ninguém o professor, no máximo te coloca no lugar que deveria ser ocupado por um.

(Vale a pena reforçar: não me conforte sugerindo substituir meu cachorro, nem me conforte pela substituição do meu curso).

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Ah, Letras é mais fácil, né... (Parte 1)

Hoje meu cachorro de 9 anos, quase 10, foi eutanasiado. Não cabe aqui discutir sobre o sofrimento pelo qual ele estava passando e sobre a eutanásia, já que o blog não é de filosofia ou bioética, mas cabe falar que me avisar que eu ainda vou poder ter vários cachorrinhos não me consola – é como quando pessoas falam a pais jovens que perderam um filho: “você está novo/nova, pode ter outro”. O veterinário me disse isso, com muita boa intenção, claro, e também me disse, em uma ação semelhante, que “letras é mais fácil que veterinária”. Eu precisaria, sim, de algum consolo por ter que sacrificar meu cachorro, mas não preciso de consolo por ter mudado de curso. Na verdade, eu estou muito feliz por ter mudado de curso, e sei de uma amiga, que saiu da veterinária para cursar antropologia, que já foi consolada de forma semelhante. “Ah, é mais fácil, né...”, soa como “Você não deu conta, agora vai ser mais fácil”, ou coisa pior. Mas não é mais fácil. 
Antes de ir para o curso de veterinária da UFMG, eu achava que era fácil, porque sempre ouvi que engenharia é difícil e os outros cursos são fáceis, e na veterinária ouvia algumas pessoas falarem que era pra ir para a engenharia se quisesse algo fácil. Desde criança, lidei com pessoas fazendo cara de decepção quando eu complementava “medicina” com a palavra “veterinária” para responder o que queria ser quando crescesse, e hoje vejo caras semelhantes quando respondo que curso letras. Acontece que eu, particularmente, acho veterinária mais difícil que letras. É muito difícil, para mim, decorar listas em uma semana, decorar conteúdos antes de ter tempo o suficiente de compreender o assunto e ter aula com pessoas sem a formação mínima necessária para ensinar algo a alguém. É bem complicado, também, perceber que você começou a se preocupar mais com a nota que com aprender. Isso não acontece no curso de letras, ou pelo menos não como no de veterinária. Além disso, é importante lembrar que pessoas são diferentes e possuem dificuldades diferentes. Por tudo isso, decidi fazer uma lista das matérias que cursei até hoje, com um comentário (extremamente pessoal, NÃO é uma verdade absoluta) sobre cada uma. Assim, é bom que as pessoas que não estão na área podem descobrir que letras não é decorar verbo, porque as pessoas não sabem o que é o curso de letras (nem o de veterinária, e, com certeza, muitos outros cursos também são diminuídos a uma única área). 
Algumas informações adicionais: na UFMG, recebemos a nota e o conceito em cada disciplina, sendo que até 39 o conceito é F, de 40 a 59 o conceito é E, de 60 a 69 o conceito é D, de 70 a 79 é conceito C, de 80 a 89, conceito B, e de 90 a 100, A. No curso de letras, temos poucas matérias obrigatórias, mas somos todos obrigados a cursos disciplinas de literatura e de linguística. Assim, cada aluno possui um currículo diferente. Eu, por exemplo, estudo bacharelado em espanhol com ênfase em tradução, mas não vejo exatamente as mesmas matérias que outras pessoas que estudam a mesma habilitação.

Então, sobre as matérias obrigatórias:

- Língua espanhola I, Língua espanhola II, Língua espanhola III, Língua espanhola IV, Língua espanhola V: todas elas são obrigatórias para os alunos do espanhol, tanto da licenciatura quanto do bacharelado. São como matérias de um cursinho de idiomas, só que mais aprofundadas, com um pouco mais de gramática e comparações entre o português e o espanhol, além de uma exigência maior (mas tudo isso depende também um pouco de cada professor). Passei com A em todas e achei as matérias tranquilas, mas para quem entrar no curso sem saber nada da língua ou para quem tem mais dificuldade, complica um pouco, ou muito.

- Oficina de língua portuguesa: leitura e produção de texto: matéria do primeiro período. Passei com A e acredito que foi tranquila para a maioria.

- Introdução aos estudos linguísticos I: é o primeiro contato que temos com a linguística e é um ótimo contato! Não tive dificuldades com a matéria, mas não julgo que seja uma matéria fácil para a maioria. Nela, temos alguns conteúdos que dialogam com outras áreas, e isso é muito interessante. Passei com A.

- Introdução aos estudos linguísticos II: matéria do segundo período. Achei mais difícil que a Introdução aos estudos linguísticos I, mas também passei com A. Dentre os conteúdos, vale a pena citar a árvore (de sintática). Sério, não é fácil – nem impossível.

- Gramática tradicional, morfossintaxe: bom, o nome é bem autoexplicativo, não é mesmo? Estudamos toda a gramática. Toda a gramática. Mas não é decoreba, pelo menos não foi com a minha professora, já que as provas eram com consulta. Passei com A.

- Teoria da literatura I, Teoria da literatura II: são matérias interessantes e acho que a maior dificuldade é a carga de leitura. Na verdade, todas as literaturas têm uma carga de leitura gigantesca. Estudamos textos em prosa na teoria I e poemas na II. Passei com A nas duas.

- Introdução à literatura comparada: a matéria foi semelhante às de teoria da literatura, inclusive na dificuldade. Passei com B.

- Fundamentos de linguística comparada: particularmente, acho uma matéria maravilhosa. É bastante conteúdo e ter conhecimento prévio ajuda. Passei com A.

- Filologia românica, formação histórica das línguas românicas: maravilhosa a matéria, tão boa quanto linguística comparada. Achei fácil, pois já tinha noção de algumas coisas que seriam estudadas, mas as pessoas em geral acham difícil. O trabalho final é de matar de tão trabalhoso/cansativo. Passei com A.

- Panorama da literatura espanhola: apesar de ter passado com A, foi a matéria mais difícil, para mim, das obrigatórias que fiz até hoje. Começou com mais ou menos 25 alunos e terminou com 7. A carga de leitura é assustadora, a exigência da professora também, e temos que ler algumas obras um pouco antigas, como El cantar de mio Cid. (Obs.: quando digo “assustadora” é sem exageros).