sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Ah, Letras é mais fácil, né... (Parte 1)

Hoje meu cachorro de 9 anos, quase 10, foi eutanasiado. Não cabe aqui discutir sobre o sofrimento pelo qual ele estava passando e sobre a eutanásia, já que o blog não é de filosofia ou bioética, mas cabe falar que me avisar que eu ainda vou poder ter vários cachorrinhos não me consola – é como quando pessoas falam a pais jovens que perderam um filho: “você está novo/nova, pode ter outro”. O veterinário me disse isso, com muita boa intenção, claro, e também me disse, em uma ação semelhante, que “letras é mais fácil que veterinária”. Eu precisaria, sim, de algum consolo por ter que sacrificar meu cachorro, mas não preciso de consolo por ter mudado de curso. Na verdade, eu estou muito feliz por ter mudado de curso, e sei de uma amiga, que saiu da veterinária para cursar antropologia, que já foi consolada de forma semelhante. “Ah, é mais fácil, né...”, soa como “Você não deu conta, agora vai ser mais fácil”, ou coisa pior. Mas não é mais fácil. 
Antes de ir para o curso de veterinária da UFMG, eu achava que era fácil, porque sempre ouvi que engenharia é difícil e os outros cursos são fáceis, e na veterinária ouvia algumas pessoas falarem que era pra ir para a engenharia se quisesse algo fácil. Desde criança, lidei com pessoas fazendo cara de decepção quando eu complementava “medicina” com a palavra “veterinária” para responder o que queria ser quando crescesse, e hoje vejo caras semelhantes quando respondo que curso letras. Acontece que eu, particularmente, acho veterinária mais difícil que letras. É muito difícil, para mim, decorar listas em uma semana, decorar conteúdos antes de ter tempo o suficiente de compreender o assunto e ter aula com pessoas sem a formação mínima necessária para ensinar algo a alguém. É bem complicado, também, perceber que você começou a se preocupar mais com a nota que com aprender. Isso não acontece no curso de letras, ou pelo menos não como no de veterinária. Além disso, é importante lembrar que pessoas são diferentes e possuem dificuldades diferentes. Por tudo isso, decidi fazer uma lista das matérias que cursei até hoje, com um comentário (extremamente pessoal, NÃO é uma verdade absoluta) sobre cada uma. Assim, é bom que as pessoas que não estão na área podem descobrir que letras não é decorar verbo, porque as pessoas não sabem o que é o curso de letras (nem o de veterinária, e, com certeza, muitos outros cursos também são diminuídos a uma única área). 
Algumas informações adicionais: na UFMG, recebemos a nota e o conceito em cada disciplina, sendo que até 39 o conceito é F, de 40 a 59 o conceito é E, de 60 a 69 o conceito é D, de 70 a 79 é conceito C, de 80 a 89, conceito B, e de 90 a 100, A. No curso de letras, temos poucas matérias obrigatórias, mas somos todos obrigados a cursos disciplinas de literatura e de linguística. Assim, cada aluno possui um currículo diferente. Eu, por exemplo, estudo bacharelado em espanhol com ênfase em tradução, mas não vejo exatamente as mesmas matérias que outras pessoas que estudam a mesma habilitação.

Então, sobre as matérias obrigatórias:

- Língua espanhola I, Língua espanhola II, Língua espanhola III, Língua espanhola IV, Língua espanhola V: todas elas são obrigatórias para os alunos do espanhol, tanto da licenciatura quanto do bacharelado. São como matérias de um cursinho de idiomas, só que mais aprofundadas, com um pouco mais de gramática e comparações entre o português e o espanhol, além de uma exigência maior (mas tudo isso depende também um pouco de cada professor). Passei com A em todas e achei as matérias tranquilas, mas para quem entrar no curso sem saber nada da língua ou para quem tem mais dificuldade, complica um pouco, ou muito.

- Oficina de língua portuguesa: leitura e produção de texto: matéria do primeiro período. Passei com A e acredito que foi tranquila para a maioria.

- Introdução aos estudos linguísticos I: é o primeiro contato que temos com a linguística e é um ótimo contato! Não tive dificuldades com a matéria, mas não julgo que seja uma matéria fácil para a maioria. Nela, temos alguns conteúdos que dialogam com outras áreas, e isso é muito interessante. Passei com A.

- Introdução aos estudos linguísticos II: matéria do segundo período. Achei mais difícil que a Introdução aos estudos linguísticos I, mas também passei com A. Dentre os conteúdos, vale a pena citar a árvore (de sintática). Sério, não é fácil – nem impossível.

- Gramática tradicional, morfossintaxe: bom, o nome é bem autoexplicativo, não é mesmo? Estudamos toda a gramática. Toda a gramática. Mas não é decoreba, pelo menos não foi com a minha professora, já que as provas eram com consulta. Passei com A.

- Teoria da literatura I, Teoria da literatura II: são matérias interessantes e acho que a maior dificuldade é a carga de leitura. Na verdade, todas as literaturas têm uma carga de leitura gigantesca. Estudamos textos em prosa na teoria I e poemas na II. Passei com A nas duas.

- Introdução à literatura comparada: a matéria foi semelhante às de teoria da literatura, inclusive na dificuldade. Passei com B.

- Fundamentos de linguística comparada: particularmente, acho uma matéria maravilhosa. É bastante conteúdo e ter conhecimento prévio ajuda. Passei com A.

- Filologia românica, formação histórica das línguas românicas: maravilhosa a matéria, tão boa quanto linguística comparada. Achei fácil, pois já tinha noção de algumas coisas que seriam estudadas, mas as pessoas em geral acham difícil. O trabalho final é de matar de tão trabalhoso/cansativo. Passei com A.

- Panorama da literatura espanhola: apesar de ter passado com A, foi a matéria mais difícil, para mim, das obrigatórias que fiz até hoje. Começou com mais ou menos 25 alunos e terminou com 7. A carga de leitura é assustadora, a exigência da professora também, e temos que ler algumas obras um pouco antigas, como El cantar de mio Cid. (Obs.: quando digo “assustadora” é sem exageros).

2 comentários:

  1. Comigo aconteceu algo semelhante, no tocante ao descaso de determinadas pessoas com o curso que escolhi inicialmente. Digo "inicialmente" por ter feito reopção, ao término do primeiro período. Passei em Comunicação Social no ano em que este curso foi criado na PUC Minas. Deu perto de 40 candidatos vagas (isto no início da década de 70). ao contar para um médico conhecido, toda feliz, que havia passado no vestibular, ele me deu os parabéns e me perguntou: "Para qual curso"? Respondi, ao que ele retrucou: "Ah, pensei que fosse para medicina". Só faltou me pedir que lhe devolvesse os parabéns. Isto tudo é fruto da visão estereotipada que nossa sociedade se habituou a fazer das profissões associando-as ao status. Em países do primeiro mundo, como a França, por exemplo, as áreas de Humanas têm o maior valor e prestígio. A "L'École Normale Supérieure", em Paris, instituição onde estudou e lecionou Sartre, é uma referência em formação de grandes nomes da cultura mundial, como Merleay-Ponty, Foulcault, Paul Nizan, Sartre, entre tantos outros. Desrespeitar a área de Humanas, como se fosse algo "menor" é típico de pensamentos rasteiros.

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    1. É mesmo comum as áreas se desrespeitarem, infelizmente, e realmente parece que a humanas leva a pior.

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