quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Entrevista a um escritor para a disciplina Escritura Creativa

Entrevista realizada por mim para a disciplina Escritura Creativa, em abril de 2016. A proposta era entrevistar, com base nas perguntas presentes em O laboratório do escritor [O laboratório do escritor e Ficção e política na literatura argentina, (Comentário: Márcia Ivana de Lima e Silva (UFRGS). PIGLIA, Ricardo. O laboratório do escritor. Trad. Josely Vianna Baptista. São Paulo: Iluminuras, 1994. p.81-94: O laboratório do escritor; Ficção e política na literatura argentina).], algum escritor de obras literárias. As perguntas, totalizando sete, deveriam ser adaptadas ou idênticas àquelas realizadas a Ricardo Piglia.

Sobre o autor:
Wallace Armani (Belo Horizonte, Brasil, 1977) é autor de obras publicadas, como o poema L’Alpino, escrito em italiano e publicado na 58° edição da revista italiana Pieve di Bono Notizie, em 2011, o poema Chuntian/Primavera, escrito em mandarim e português, publicado na Antologia de Ouro do Museu Nacional da Poesia, em 2012, o conto Verwaist e gli spiritelli del bosco, escrito em italiano e publicado na Itália, no livro Antologia Parole per Strada, em 2013, além de prólogos de dois livros e obras não publicadas.

A seguir, a versão em português da entrevista:


1) Como você começou a escrever? Como se publicou sua primeira obra? O que lembra desse período?
“Comecei a escrever ainda na adolescência, mas naquele tempo eram apenas devaneios poéticos que me rendiam elogios tanto de colegas quanto de professores. Era tudo bastante amador e sem nenhuma pretensão artística e/ou mercadológica. Lembro de ter, nesse período, lido muitos autores, inclusive me abstinha de algumas aulas para poder ir apreciar uma boa literatura. Minha primeira publicação foi em 2006, no Suplemento Literário de Minas Gerais, na edição de junho. Para o meu espanto, eles dedicaram 6 páginas de suas 24 sobre o meu trabalho, intitulado a Farsa dos Tempos, um encontro entre música e texto teatral. Nesse momento da minha vida, estava bastante envolvido com o meio musical erudito de Belo Horizonte e com os poetas locais.”

2) Qual foi o clima intelectual de sua casa e sua infância? Sua inclinação literária foi apoiada ou desestimulada? Há autores decisivos em sua tendência literária?
“Minha infância foi regada a leitura, frequentava as bibliotecas locais, além de poder ter acesso a um projeto conhecido como Biblioteca Volante, promovido pelo Sesc - que era na verdade um caminhão cheio de livros e adequadamente equipado como uma biblioteca, que todas as sextas-feiras ia até o meu bairro. Pude conhecer muitos autores e obras ainda nesse período, essa necessidade de leitura me acompanharia até a adolescência. Minha família não era composta de intelectuais, mas ao mesmo tempo, eles percebiam a minha gana por saber e até gostavam disso. Tive o apoio que uma família de classe média ou pobre podia dar nos anos 80 e início dos 90, mas isso não impediu que eu pudesse ter contato com arte, literatura e música erudita. Tenho alguns autores que me influenciam sobremaneira, apesar de não tentar copiar os seus estilos e sua escrita, são eles: Homero, Dante, Shakespeare, Joyce, Pound, Hemingway, Hesse, Tolkien, Poe, Mayakóvsky, Goethe, Hebbel e Buzzati.”

3) Como você trabalha? Faz planos, esquemas? Lê outros autores nos períodos em que está trabalhando numa obra própria? Quando e como corrige?
“Trabalho através de exaustiva pesquisa e por meio de esquemas e estruturas. Procuro exaurir as minhas possibilidades quando estou diante de alguma nova criação. Leio muito durante esse período e não penso que isso seja prejudicial, muito pelo contrário, pois isso me mostra novas formas de olhar para o meu próprio trabalho. Corrijo durante o processo e faço uma infinidade de anotações. Para se ter uma ideia, é como se eu produzisse 1.000 páginas de material para realmente aproveitar 100.”

4) Diz-se que todo escritor tem seus temas constantes, que definem sua obra. Como você definiria os seus?
“Não penso que tenha temas, mas procuro explorar mundos e criaturas que não existiriam em nosso mundo "real", mas sim, em nossos sonhos.”

5) Qual seria, a seu ver, o leitor ideal de sua obra?
“Quando escrevo, não penso em um ou mais leitores ideais, mas percebo que se um determinado leitor gostar de línguas estrangeiras, mitologia, revistas em quadrinhos e artes em geral, poderá apreciar mais o que produzo.”

6) Alguma obra sua já passou por crítica literária? Que relação se estabelece (se é que se estabelece alguma) entre consagração crítica, sucesso de público e qualidade literária?
“Particularmente, não penso em escrever algo para atingir um determinado público apenas com o intuito de vender ou não. Acredito que qualidade literária ou artística independe de aceitação do mercado e isso não influencia a minha escrita.”

7) Você vive de literatura? Que outras atividades realiza ou realizou?
“Ainda não me permito viver de literatura, mas trabalho como professor de línguas estrangeiras, tradutor e, antes disso, me mantive por anos a fio como compositor erudito e regente.”

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