quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Isaura no Líbano

            Meu bisavô, pai da minha avó materna, nasceu na Grande Síria, em Anfeh, região que hoje pertence ao Líbano. Sua língua era o árabe (ISO 639-3, pelo Ethnologue), e o mais provável é que não soubesse mais nenhuma língua – apesar de o árabe não ser a única língua falada na região, sendo que alguns de seus parentes falavam também o francês, pelo que parece. Ele chegou aqui sem saber nada de português, teve seu nome adaptado e, como tantos outros estrangeiros, sua língua não foi conservada pela família.
            Como explica, citando Harris e Sherwood (1978), Amparo Hurtado Albir, no segundo capítulo do livro Traducción y Traductología: introducción a la Traductología, todos que falam mais de uma língua possuem uma habilidade inata e rudimentar para a tradução, a tradução natural. Assim, a autora fala em uma tradução interiorizada, que é quando comparamos nossa língua materna com a que estamos aprendendo, fenômeno que com o passar do tempo, do aprendizado, começa a desaparecer (sabe quando estamos estudando um idioma e a professora diz “para de traduzir, tenta pensar na língua”?). 
Como um bom falante de língua estrangeira em terras estranhas, esse meu antepassado deve ter “produzido” muita tradução interiorizada, mas ele foi um pouco além: traduziu ao árabe A Escrava Isaura, livro que deu nome à minha avó. Infelizmente, não temos contato com a gente de lá, não sabemos onde está a cópia da tradução da obra e, mesmo se soubéssemos, não saberíamos ler. O fato é que, na troca, ficamos apenas com a culinária: os parentes de lá herdaram, através da obra brasileira, um pouquinho de nossa cultura, enquanto nós recebemos de lá o hummus bi tahina, o tabulah, o baba ghannuj. Fico imaginando como seria o Brasil se conservássemos mais as línguas dos nossos antepassados. Imagino que mais colorido.

Fonte:
HURTADO ALBIR, Amparo. “Clasificación y descripción de la traducción”. In: Traducción y Traductología: introducción a la Traductología. Madrid: Cátedra, 2001. p. 43 - 95.
(E minha mãe, com os dados da família e a história da tal tradução nunca atestada).

Versão em espanhol.


По-русски.

3 comentários:

  1. Amei relembrar uma história da minha família. A tradução do livro "A Escrava Isaura" para o árabe sempre foi contada pela minha mãe, Isaura, e por todas as minhas tias. A minha mãe tinha muito orgulho de seu nome.

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    1. Quem sabe um dia a gente não encontra a tradução, né?

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    2. Eu daria tudo para ter esta tradução comigo. Ela tinha uma foto da mamãe, bebê, no colo do "gide". Sei que uma cópia foi para Anfeh, pro tio Khali, mas acho que havia uma outra, do Gide mesmo.

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