quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Poliglota em uma língua

Me lembro de quando era criança, e depois adolescente, e gostava de quase todas as matérias da escola, inclusive Português – menos quando tive, na oitava ou sétima série, uma tal de sintaxe, e lia no cronograma que já havia estudado isso, mesmo sem fazer ideia do que significava “essa palavra estranha”. No cursinho pré-vestibular, voltei a ter sintaxe, mas aí já tudo fazia sentido na minha cabeça. Bom, mas isso não vem ao caso: o importante é que logo que comecei o curso de Letras, após mais de um semestre esperando a decisão da universidade quanto a minha reopção de curso, tempo que passei me divertindo com materiais de algumas línguas estrangeiras e uma gramática escolar de língua portuguesa, inclusive com a parte da sintaxe, descobri que português era outra coisa. Não lembro qual foi o professor que falou sobre ser poliglota na língua portuguesa, mas hoje penso sobre como isso ocorre na língua do outro. Foi aí, com esse professor, que descobri que português é muito mais do que aquilo que eu sentia como algo alheio a mim nas aulas da escola, foi aí que descobri que minha língua não é um sistema qualquer sem um porquê, mas que é a minha língua.

Não é necessário muito tempo para discutir sobre o que meu professor quis dizer com isso, basta uma pesquisa naquele site de busca que todo mundo (?) usa para ter acesso a vários textos, mais interessantes ou menos, sobre o assunto. Mas, e a importância de se ser poliglota na língua do outro, a importância que dão os profissionais que trabalham com uma língua não materna (professor, tradutor) a ser poliglota naquela língua? Algo que sempre me incomodou enquanto aluna de idiomas foram aulas que desconectavam a língua da cultura, do povo. Por sorte, isso não aconteceu com todas as línguas que estudei nem com todos os professores que tive, e hoje, como professora de espanhol, tento me basear nos bons exemplos. Pessoalmente, de nada me adianta saber reproduzir perfeitamente as regras de uma gramática normativa se não estou apta a reconhecer/respeitar variações linguísticas; ser um livro didático vivo e não saber adaptar meu discurso a nenhuma situação real; saber falar como alguém “legal”, “da galera”, e reduzir todos os povos falantes de uma língua à fala jovem de um lugar “super badalado”; ser aquele que consegue falar com pompa, mas não pode se comunicar com pessoas de outras camadas sociais – da língua do outro ou da minha.

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