quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Espanhol nas escolas (ou Como desanimar com a Licenciatura)

           Termino meu bacharelado esse semestre, se tudo der certo, e planejava começar a licenciatura logo em seguida – não é só de prática que se faz um profissional, e eu curto bastante uma sala de aula, com um professor, e não só o estudo solitário. Com minha orientadora da monografia disposta a me orientar no mestrado e argumentando que meu perfil é de aluno de mestrado, decidi ir direto para a pós e, paralelamente, continuar puxando matérias da licenciatura, ou tentar o processo seletivo do Programa de Formação Pedagógica do CEFET-MG (que, para ser sincera, já li bastante sobre, mas ainda não o suficiente).

            “É claro que o espanhol vai ser prejudicado com essa Deforma do Ensino Médio, mas dá pra continuar tentando”. Eu pensava assim até alguns minutos, quando li no Facebook um depoimento que me desanimou muito: 


Desabafo...
Por que o descaso com o Espanhol?
Nesta tarde cheguei à nova escola de Ensino Fundamental que fui designada para completar minha carga horária, para dar minhas aulas de espanhol. (Muito feliz depois do pânico de quase perdê-las).
Ao chegar à escola fui confirmar a sequência das aulas. Para minha surpresa no horário constava inglês ao invés de espanhol. Pensei que se tratava de um pequeno erro... Mas neste momento fui informada que a grade mudou e não tem mais espanhol. Faltando cinco minutos para entrar em sala sou informada que devo dar aula de inglês. Que por "ordem de cima", espanhol tinha caído fora. Eu poderia neste momento jogar no lixo todo o planejamento da tarde de sábado, feito com tanto carinho e pedir para os alunos fazerem qualquer coisa (a qualidade não é relevante).
Nunca chorei tanto, de humilhação, de tristeza, desespero, insegurança. 
Por que o descaso com o espanhol?
Muitos postaram sua indignação com relação às outras disciplinas. Mas com o espanhol nos calamos, porque temos medo de nossos próprios alunos dizerem Graças a Deus não vai ter mais...
O que representa o fim do espanhol é simbólico...
Aprender espanhol no Brasil representa fortalecer nossa identidade latina de povos irmanados geográfica e historicamente no mesmo sofrimento e massacre dos verdadeiros donos destas terras, na destruição e saqueio de nossas riquezas e estupro de nossa cultura de origem. 
Aprender espanhol no Brasil é o idioma para tentar se comunicar e entender o outro, tentar instrumentalizar o aluno para através da leitura em LE ampliar suas possibilidades de pesquisa, as manifestações culturais, a literatura, a música, a arte, a gastronomia, as viagens virtuais pelos pontos turísticos, os textos que sempre provocam reflexões, é a tentativa de levar para sala as inovações tecnológicas e estimular o uso das mesmas como ferramentas na aprendizagem autônoma...
Aprender espanhol representa ampliar a bagagem cultural. Mas para muitos isso não interessa. É inútil. Nestas terras irmãs, nós o povo, podemos ser turistas...
Aprender inglês todos sabemos sempre foi fundamental. Mas neste momento que vivemos e a sua supervalorização com a “reforma do Ensino Médio” e o fim do espanhol, tornando o inglês uma das poucas disciplinas obrigatórias também é simbólico... Me perdoem a ignorância, mas me permitam dizer: Representa o que se quer para esta geração! Melhor prepará-la para entender ordens do patrão. A necessidade de estar melhor preparados e de joelhos para servir ao explorador que segue a sugar-nos a jugular. Nestas terras nós, o povo, sempre seremos só serviçais.
(Depoimento divulgado na página da professora Iara Oliveira, no dia 23/02/2017: https://www.facebook.com/iara.oliveira.1460693/posts/1429132583784192?pnref=story).


Uma situação absurda e humilhante, um verdadeiro jogo dos 7 erros: tirar uma disciplina assim, do nada, sem comunicar a professora; obrigá-la a dar aula de inglês, sem nenhum planejamento, afinal, “a qualidade não é relevante”; a total falta de respeito com os alunos que acabaram de perder o acesso ao ensino de uma língua estrangeira; falta de respeito com os pais/responsáveis; falta de respeito com a professora; falta de respeito com a possível integração que o aprendizado de espanhol proporcionaria com os nossos povos vizinhos. O sétimo erro fica a critério de cada um descobrir qual é.

O fato é que não entendo como há adultos que não percebem a importância do ensino de TODAS as disciplinas, que não percebem que o conhecimento não deve ser fragmento, que uma única área NÃO É e NUNCA vai ser o suficiente! Apesar de ter largado o curso de veterinária, eu tenho certeza que aprender só biologia não teria sido o suficiente. Em letras, senti falta de muitos conteúdos de história, de sociologia, de filosofia, e sei que isso é só o mais óbvio, porque as outras áreas também são importantes dependendo do percurso que cada um escolher.

Sinto muito por todos os professores, por todos os estudantes de licenciatura e por todos os alunos que ainda vão começar o ensino médio, e que já não terão um ensino ruim, terão um ensino péssimo e incompleto. Já pela grande desinformação e desconhecimento linguístico no Brasil nem vale a pena lamentar mais... 

3 comentários:

  1. Eu abandonei a ideia do ensino (pelo menos em turmas, no ensino regular) em 2012, quando passei por uma experiência pavorosa na rede privada. A falta de respeito sempre existirá - ou somos cães famintos do governo, ou somos prostitutas da rede privada. O bom da Letras, como eu já devo ter dito para vc alguma vez, é a amplitude do leque: pesquisa, tradução, revisão, avaliação, escolas de línguas e, na pior das hipóteses, qualquer concurso público que exija nível superior (até porque o modo como lidamos com a graduação nos dá a expertise para "adivinhar" as questões de qualquer prova). Enquanto a gente não acorda do pesadelo do Conde Drácula, vale a pena arriscar outros segmentos... e tentar uma bolsa para aprimorar o idioma e dar um refresco daqui com todas as forças.

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    1. O problema é que aqui em BH as opções devem ser bem menores que aí em SP. Pra você ter ideia, nem a PUC tem espanhol mais, só sobreviveu o inglês e o português. A estadual só tem ingl e port também, e as particulares (fora a PUC) costumam ter só português, mas você encontra algumas EADs que ofertam espanhol (mas não são empresas daqui). Na UFMG, minha última professora de latim disse que, pela falta de aluno, o latim e o grego vão ter que virar um curso só, ou iriam acabar. Conheci uma aluna do alemão que disse que a procura também é muito baixa e correm o risco de ter que fechar o curso um dia.
      Aí as possibilidades para seguir carreira acadêmica já diminuem consideravelmente, e escolas de idiomas aqui não costumam precisar de muitos professores de espanhol (já entrei em contato com uma que na propagando diz que tem "inglês e espanhol", mas me falaram que não contratam professor, porque os alunos não têm interesse em aprender espanhol). E aí eu vejo as opções de línguas que vocês têm na USP e as do pessoal da UFRJ, e fico imaginando como deve ser o mercado no Rio e em SP, pq aqui é um pouco fraquinho kkkkkkkkkk
      Mas tá bom, tou gostando do curso, só fico triste em ver que as pessoas não têm muito interesse em estudar línguas e que pro espanhol agora vai piorar. Ah, e eu tentar intercâmbio é sem chance! Já tentei pra UBA, eram duas vagas e eu ia pegar a segunda, se não tivessem calculado a média do meu rendimento semestral considerando os anos que estive na veterinária (meu número de matrícula é o mesmo, então minhas notas da vet estão no meu histórico. No edital, diziam que calculavam essa média e davam uma pontuação comparando a média do aluno com a média do curso do aluno. Se a do aluno fosse menor que a de 50% dos alunos do curo, ele ganhava 0 pontos, e o máximo de pontos era 5. A minha era algo em torno de 4.7, então, pela tabela que divulgaram, eu ganharia 5 pontos, mas como calcularam considerando as notas da veterinária, minha média ficou menor que a de 50% dos alunos e eu não passei. Não adiantou tentar explicar que veterinária não é o curso dos alunos da letras, nem que "o curso" pressupõe um curso e veterinária + letras são dois cursos kkkkkkkkkk). Agora já vou formar e não posso mais tentar intercâmbio.

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    2. Concordo plenamente com a minha filhota Amanda. Mandita, como sempre, arrasando nas suas ideias!

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