Beber direto da fonte

Quando estava no meu primeiro ou segundo período de Letras, em uma aula de Teoria da Literatura, parte do tema em sala foi sobre a tendência que temos em não ir direto à fonte, em ler um texto de alguém falando sobre outro texto - isso quando não é um texto sobre um texto que fala sobre um terceiro texto. Pelo que me lembro, a visão da professora sobre a importância de não lermos apenas a interpretação e ponto de vista de terceiros tinha relação com não ficarmos só na teoria e lermos, também, literatura. 

Nesses anos, tive que ler muitos textos meia boca de literatura, e muitos textos ótimos também, lógico. Agora, no final do curso, pela primeira vez me vi compelida a ler textos pavorosos de linguística, daqueles que é preciso se esforçar muito para conseguir tirar algo de proveitoso (imagina laranjas velhas e secas. Agora se imagina tentando fazer suco com elas). Por sorte, foram poucos desses, mas acabei de ter uma experiência sobre a importância de seguir os conselhos daquela antiga professora.

Após algumas horas escrevendo e reescrevendo um trabalho, decidi parar de ler apenas textos que citavam a teoria que estou estudando e buscar o original. Em poucos segundos, encontrei um pdf no site de uma universidade que nunca ouvi falar, na Europa, e demorei menos tempo para ter surpresas boas (a linguagem do autor é infinitamente mais agradável que a que encarei nos últimos dias) e ruins (pela fama e importância da teoria, esperava muito mais rigor científico do que encontrei até o momento - não terminei o texto).

De toda forma, o importante é que agora eu realmente sinto que conheço o que estou falando. Agora sou um pouco menos papagaio, e teria, inclusive, condições de discordar do dado que considerei falho. Seria uma ótima oportunidade para perguntar a um professor se o autor se expressou mal ou se realmente quis dizer o que disse. Seria uma oportunidade melhor ainda de citar isso no meu trabalho, mas é claro que não vou fazer, afinal, não passo de uma mera graduanda, mas isso é outra história...

Comentários

  1. Libertar-se dessas amarras é ótimo, né? Acho que a linguística é um caso emblemático também para mim. Vcs também usam/usaram os dois volumes de Introdução à Linguística do Fiorin? Pois é... Saussure certamente é mais agradável de se ler do que o professor responsável pelo "resenhão", na minha humilde opinião. No caso, éramos incentivados a ler os textos-fonte, também, mas, levando em conta as outras matérias, a falta de tempo e o fato de ler o livro do Fiorin bastar pra passar, vc já imagina o que acontecia. A crítica é fácil, confortável e até loucamente demandada pelos docentes em um trabalho de graduação (ai de vc se der um pio sem 100% de embasamento fora dos textos consagrados!), mas é inegável que vicia a academia e restringe o nosso olhar.

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    1. Não, em Linguística 1 (basicamente, fonética e fonologia) eu usei o Fonética e Fonologia do Português, da Thaïs Cristófaro. Em Linguística 2, usamos principalmente parte da Nova gramática do português brasileiro, do Ataliba Castilho, e de uma gramática do Perini. A primeira parte de Linguística 1 foi mais genérica, com textos aleatórios que eu já não faço nem ideia de quem eram. Em Linguística Comparada usamos uma apostila feita pelos próprios professores.
      Em geral, o material não é ruim, mas alguns conteúdos acho que são tratados de forma superficial, vira exatamente um "resenhão", como você disse. Mas a gota d'água foi ler três artigos de uma autora que fez plágio dela mesma (parte deles é praticamente igual, ela mudou poucas palavras e não citou o artigo mais antigo como fonte).

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    2. Outra coisa que me incomoda é quando surgem dados incompletos, ou mesmo errados, de outras áreas do conhecimento. Você comenta com o professor e ele diz praticamente que está ok, porque o Fulano que escreveu é muito bom.

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