sexta-feira, 28 de abril de 2017

Beber direto da fonte

Quando estava no meu primeiro ou segundo período de Letras, em uma aula de Teoria da Literatura, parte do tema em sala foi sobre a tendência que temos em não ir direto à fonte, em ler um texto de alguém falando sobre outro texto - isso quando não é um texto sobre um texto que fala sobre um terceiro texto. Pelo que me lembro, a visão da professora sobre a importância de não lermos apenas a interpretação e ponto de vista de terceiros tinha relação com não ficarmos só na teoria e lermos, também, literatura. 

Nesses anos, tive que ler muitos textos meia boca de literatura, e muitos textos ótimos também, lógico. Agora, no final do curso, pela primeira vez me vi compelida a ler textos pavorosos de linguística, daqueles que é preciso se esforçar muito para conseguir tirar algo de proveitoso (imagina laranjas velhas e secas. Agora se imagina tentando fazer suco com elas). Por sorte, foram poucos desses, mas acabei de ter uma experiência sobre a importância de seguir os conselhos daquela antiga professora.

Após algumas horas escrevendo e reescrevendo um trabalho, decidi parar de ler apenas textos que citavam a teoria que estou estudando e buscar o original. Em poucos segundos, encontrei um pdf no site de uma universidade que nunca ouvi falar, na Europa, e demorei menos tempo para ter surpresas boas (a linguagem do autor é infinitamente mais agradável que a que encarei nos últimos dias) e ruins (pela fama e importância da teoria, esperava muito mais rigor científico do que encontrei até o momento - não terminei o texto).

De toda forma, o importante é que agora eu realmente sinto que conheço o que estou falando. Agora sou um pouco menos papagaio, e teria, inclusive, condições de discordar do dado que considerei falho. Seria uma ótima oportunidade para perguntar a um professor se o autor se expressou mal ou se realmente quis dizer o que disse. Seria uma oportunidade melhor ainda de citar isso no meu trabalho, mas é claro que não vou fazer, afinal, não passo de uma mera graduanda, mas isso é outra história...

3 comentários:

  1. Libertar-se dessas amarras é ótimo, né? Acho que a linguística é um caso emblemático também para mim. Vcs também usam/usaram os dois volumes de Introdução à Linguística do Fiorin? Pois é... Saussure certamente é mais agradável de se ler do que o professor responsável pelo "resenhão", na minha humilde opinião. No caso, éramos incentivados a ler os textos-fonte, também, mas, levando em conta as outras matérias, a falta de tempo e o fato de ler o livro do Fiorin bastar pra passar, vc já imagina o que acontecia. A crítica é fácil, confortável e até loucamente demandada pelos docentes em um trabalho de graduação (ai de vc se der um pio sem 100% de embasamento fora dos textos consagrados!), mas é inegável que vicia a academia e restringe o nosso olhar.

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    1. Não, em Linguística 1 (basicamente, fonética e fonologia) eu usei o Fonética e Fonologia do Português, da Thaïs Cristófaro. Em Linguística 2, usamos principalmente parte da Nova gramática do português brasileiro, do Ataliba Castilho, e de uma gramática do Perini. A primeira parte de Linguística 1 foi mais genérica, com textos aleatórios que eu já não faço nem ideia de quem eram. Em Linguística Comparada usamos uma apostila feita pelos próprios professores.
      Em geral, o material não é ruim, mas alguns conteúdos acho que são tratados de forma superficial, vira exatamente um "resenhão", como você disse. Mas a gota d'água foi ler três artigos de uma autora que fez plágio dela mesma (parte deles é praticamente igual, ela mudou poucas palavras e não citou o artigo mais antigo como fonte).

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    2. Outra coisa que me incomoda é quando surgem dados incompletos, ou mesmo errados, de outras áreas do conhecimento. Você comenta com o professor e ele diz praticamente que está ok, porque o Fulano que escreveu é muito bom.

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