domingo, 26 de novembro de 2017

O inglês na minha vida: uma história de ódio e pavor

Não sei quando comecei a estudar de verdade inglês, mas foi em 2001 que comecei a estudar de mentira. Estava na quinta série e fiquei muito feliz por ter meu primeiro ano de aula de língua estrangeira. Naquele ano, me lembro apenas de haver estudado o alfabeto, pronomes pessoais na função de sujeito, algum vocabulário, uma musiquinha para o dia das mães e uma oração, já que, infelizmente, a escola não era laica. Apesar disso, tudo teria ido muito bem se meus pais não tivessem tido a ideia de investir na minha educação pagando uma escola de idiomas. Foram duas tentativas em um ano, nessas franquias de educação fast-food, e o resultado não poderia ser diferente de trágico. Até para uma pré-adolescente, o ensino parecia muito infantilizado, não avançava muito e a professora ainda saía de sala e deixava os alunos assistindo a vídeos. Assim, dei o primeiro passo para criar um bloqueio ridículo com a língua.

No ano seguinte, mudei de bairro e de escola. Agora estudava em uma que os alunos tinham inglês há mais tempo, alguns faziam cursinho de idiomas desde bem novinhos, e, logo no segundo dia de aula, quando cheguei e descobri que era a única que não tinha feito o para casa e que não sabia fazer, comecei a me sentir burra. Dentro da escola, havia um curso de inglês. Fiz o teste de nivelamento e caí em uma turma de alunos mais velhos – eu tinha 12, eles deviam ter em torno de 15. O professor só falava em inglês na aula e eu não conseguia acompanhar. Pedi para me trocarem de nível e me colocaram em um que achei muito infantil. Desisti do curso.

Em 2003, mudei de escola novamente. Nessa época, eu já tinha certa preferência pelo espanhol, que comecei a estudar na escola anterior. No segundo semestre de 2004 decidi que queria aprender francês. Fui matriculada no curso do Centro de Extensão (Cenex) da UFMG, mas com um ano de curso percebi que estava misturando muito o francês com o espanhol, e decidi focar na língua que tinha na escola. Essa experiência me fez perceber que eu não gostava de estudar com pessoas da minha idade, funcionava muito mais com colegas de 30, 40 anos, em um lugar sério, e aí descobri o motivo de não ter dado certo nas escolas de inglês. Durante esse período, não me lembro de ter estudando muito mais que o verbo to be.

Aos 16 anos, mudei de escola pela última vez. Novamente, estava em uma escola que tinha espanhol e inglês, e dessa vez o professor era um cara que tinha morado na Argentina por um ano. Passava alguns intervalos conversando com ele, que me contava sobre o país e sobre como ganhava dinheiro dançando tango nas ruas de Buenos Aires. Foi no mesmo ano, em 2006, que comecei o curso de espanhol no Cenex, que viria a acabar em 2009. A comparação era inevitável: enquanto nas aulas de inglês eu aprendia apenar a língua, em espanhol estudava, também, variação linguística e cultura. Foi graças às minhas professoras do Cenex que conheci os filmes do Almodóvar! Com isso já tinha bem definido que eu gostava de espanhol e não gostava de inglês, e esse não gostar só aumentava a cada vez que ouvia piadinhas de colegas de escola sobre como espanhol era chato/português falado errado/pior que inglês/fácil. Durante todo esse tempo que estudei inglês na escola, apesar de ser em rede privada – contrariando o senso comum – não aprendi praticamente nada: parecia que estava em um loop infinito de to be, can, do/does.

Em 2007, tentei meu primeiro vestibular e fiquei como excedente. No ano seguinte, passei em veterinária, na UFMG, e em 2009 iniciava o curso e terminava o espanhol no Cenex. Decidi que queria iniciar o italiano, mas meu pai não deixou, disse que era inútil e que eu deveria estudar inglês. Iniciei, a contragosto, o inglês em outro curso de idiomas que funcionava dentro da universidade, e percebi que já havia me esquecido muito do pouco que aprendi na escola. No segundo semestre já não aguentava o sistema das aulas: um misto de behaviorismo com falta de noção. Mudei para o Cenex e lá conclui o curso. Apesar da boa qualidade das professoras do Cenex e dos colegas serem bacanas, ainda sentia falta de aprender pelo menos um pouco sobre as culturas dos falantes e sobre variação.

Por volta de 2012, comecei a me conscientizar que não era culpa da língua as experiências ruins que vivenciei. Apesar disso, já tinha um desânimo e um trauma grandes o suficiente para não conseguir me organizar o bastante para estudar sozinha. Ademais, acreditava que todo mundo sabia inglês, menos eu. Em 2013, larguei a veterinária e iniciei o bacharelado em espanhol, na UFMG. Em 2015/1, puxei a disciplina Habilidades Integradas I, que corresponde a mais ou menos o nível B1. Essa é a primeira matéria do curso de inglês na graduação da UFMG, e parte do pressuposto de que o aluno já sabe, pois aprendeu na escola, e precisa apenas de uma revisão – ao contrário de todas as outras línguas do curso, que começam do básico. Eu não precisava/preciso de uma revisão, e sim de aprender, e isso me desanimou um pouco.

Em 2013 eu já não conseguia falar nada em inglês, mas, em compensação, minha leitura e compreensão oral já haviam melhorado consideravelmente: minhas aulas de mandarim no Instituto Confúcio eram em inglês, e a maioria dos materiais escritos de mandarim também. A língua se converteu em mero instrumento que me possibilitaria o acesso a outros idiomas. Durante esse tempo, até 2016, tive outras tentativas frustradas de reaprender inglês, mas no final sempre tinha crise de ansiedade e terminava com a glote fechada, dores e choro. Em 2017/1, concluí meu bacharelado e decidi continuar os estudos para pegar a licenciatura do espanhol, mas, como nem tudo são guacamole, acentos atractivos e música cachonda flores, aceitei que precisaria do português para não morrer de fome com a revogação da Lei 11.161.

Finalmente, em 2017/2 comecei a licenciatura dupla português/inglês na Puc Minas, porque meu pai me convenceu que «já que vai estudar, pega tudo de uma vez (o inglês também, não só o português)». Durante esse primeiro semestre, participei de uma oficina de inglês e da primeira disciplina do curso. Já consegui um grande avanço: não tive nenhuma crise de ansiedade durante as aulas e estou um pouco mais confiante. Comecei também um tandem com um rapaz de Gana, e aos poucos estou conseguindo relembrar o que aprendi um dia. Também estou tentando me decidir por um acento (e cultura) que me agrade mais – já quis o jamaicano e o SIEP (Standard Indian English Pronunciation), mas o menino de Gana está quase me convencendo que vale a pena tentar uma variedade britânica. Espero em alguns anos poder escrever um novo texto, com o título diferente desse.




(Postado originalmente hoje, 26/11, no blog Metaforicamente, em desenvolvimento pelos alunos de Letras do primeiro período da Puc Minas. Por enquanto, está no link, visível apenas para os alunos, mas acredito que um dia vai ficar visível para todos, quando for revisado pela professora - ou não, porque esse trabalho/blog tá mais bagunçado que a bendita cabeça de quem fez a reforma do ensino médio).

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